CRACK -
Rolam as pedras
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(Juliana
Resende/BR Press - São Paulo)
Com todo esse alvoroço acontecendo em São Paulo por
causa da Cracolândia região no centro da capital paulista em que viciados de
todas as idades, muitos crianças e adolescentes, fumam crack (derivado de
cocaína em pedra) abertamente, a BR Press decidiu conversar com um
especialista sobre os reais efeitos e causas do uso da droga entre jovens
brasileiros.
Marcelo Ribeiro é psiquiatra, diretor de Ensino da Unidade de Pesquisas em Álcool e Drogas (Uniad), da Universidade Federal Paulista (Unifesp) e coautor do livro O Tratamento do Usuário do Crack (Artmed, 664 págs.), uma espécie de "manual de sobrevivência" com relação à droga, monstrando suas consequências e a depedência que, uma vez ocorrida, vem se mostrando muito difícil de vencer. Ainda mais entre crianças e adolescentes em situação de rua.
Se hoje as cenas na Cracolândia impressionam pela
degradação e os governos estão tentando combater o problema com a polícia, é
porque o fenômeno do crack foi crescendo há cerca de 20 anos e quase nada foi
feito para evitá-lo. É como se os governantes fossem eternos adolescentes
"que vivem e valorizam o presente e tendem a não se preocupar com as
consequências do crack", como diz Marco Antonio Bessa, também
psiquiatra, especialista em Dependências Químicas pela Uniad/Unifesp, e autor
de um capítulo dedicado aos jovens no livro O Tratamento do Usuário do
Crack.
Para Bessa, é por causa desse traço imediatista da adolescência e pela avidez
de experimentar novas sensações sem falar na rebeldia típica dessa fase da
vida, que os adolescentes são mais vulneráveis aos sérios e muitas vezes
irreversíveis danos do crack e outras drogas. A seguir, Marcelo Ribeiro
explica o por quê.
O senhor afirma que estudos científicos mostram que é comum a experimentação de drogas na adolescência. Até que ponto o uso "sazonal" pode se tornar um vício?
A adolescência é o período em que se dá a experimentação da maior
parte das substâncias psicoativas, especialmente o álcool e o cigarro, mas
também de algumas drogas ilícitas como a maconha. Essa é a fase da vida
em que o modo de consumo de uma substância se estrutura na vida dos
indivíduos.
Isso confere grande importância para esse período. A maior parte
dos jovens que experimentam drogas nessa fase tende a reduzir ou abandonar o
consumo das mesmas antes da idade adulta. No entanto, alguns fatores,
tais como a precocidade do contato com qualquer tipo de droga (incluindo o
álcool e a nicotina), o baixo nível de apoio familiar e social, bem como a existência
de problemas pessoais - especialmente a existência de doenças mentais
associadas (comorbidades), aumenta o risco de o contato com drogas nesse
período evoluir posteriormente para o uso problemático.
O senhor afirma que "se a experimentação acontecer com cocaína,
em especial na forma do crack, o risco de o jovem tornar-se dependente é
muito grande". Por quê?
A cocaína é um estimulante do sistema nervoso, com ação intensa no
sistema de recompensa, uma estrutura do cérebro que é normalmente ativada em
situações capazes de promover a subsistência do ser humano e de sua espécie -
alimentação, afeto, sexo, proteção, etc. Nesses casos, há uma reação de
prazer, euforia e relaxamento. Qualquer droga, entre elas a cocaína,
ativa esse sistema de um modo centena de vezes mais intenso. O crack,
uma forma de cocaína para ser fumada, por ser disponibilizada no organismo em
grande quantidade e atingir o cérebro prontamente, produz efeitos mais
intensos ainda. Quanto mais intenso o efeito de uma droga, maior é o
risco de causar dependência.
Até que ponto podemos afirmar que o uso de crack está intrinsecamente
ligado à situação de rua para crianças e adolescentes?
O crack surgiu e é tradicionalmente consumido em locais socialmente
degradados e abandonados. Talvez porque o modo caótico e preocupado
apenas com o uso e a aquisição de uma nova dose sejam incompatíveis com
ambientes mais organizados.
Há estudos que mostram que, num lar e família estruturados, as chances
de crianças e adolescentes experimentarem crack diminuem? Quais?
Isso é uma regra geral. Lares desestruturados, violentos e
abusadores da infância são um fator propiciador de mais violência e uso de
drogas.
O senhor afirma que, apesar de o crack vir crescendo como
epidemia desde os anos 80 – "de modo especial entre crianças e
adolescentes – as medidas de enfrentamento desse problema e prevenção de seu
uso estão muito aquém das necessidades impostas pela realidade". Nesse
sentido, como avalia as ações dos governos do Rio e SP com relação às
crianças e adolescentes usuários da droga?
O Brasil avançou nos últimos 20 anos, quando havia centros de
tratamento ambulatorial em apenas 4 ou 5 universidades públicas
brasileiras.
Atualmente, há centros de apoio psicossocial para álcool e drogas
(CAPS-AD) e enfermarias para desintoxicação (infelizmente ainda muito
raras). Algumas comunidades terapêuticas se estruturaram enormemente e
tem havido uma maior integração entre o tratamento formalmente oferecido pelo
Estado e os grupos de mútua-ajuda (AA, NA e Amor Exigente). No entanto,
faltam as estruturas de apoio intermediário, tais como moradias
assistidas, centros de convivência, albergues e mesmo creches que considerem
a realidade dos usuários de droga e os auxiliem em sua reinserção
social. Faltam também agentes capazes de integrar melhor as opções de
tratamento para os usuários.
O senhor afirma que "é muito raro um adolescente buscar ajuda de
forma espontânea para um problema de uso de drogas". A prefeitura do Rio
obriga crianças e adolescentes detidos nas cracolândias a ficar internados
para tratamento médico, mesmo contra a vontade deles ou dos familiares. A
internação obrigatória divide opiniões. Qual é sua opinião a respeito?
A internação compulsória pode ser considerada uma das muitas
estratégias de tratamento para esses usuários. Em geral, deve ser
lançada sempre que houver situações de risco iminentes, capazes de trazer
graves danos ao usuário ou seu grupo de convívio. Deve ser curta e
voltada para a desintoxicação, para o diagnóstico pessoal e familiar, bem
como para o planejamento do tratamento pós-alta. É apenas o primeiro
passo.
O senhor afirma que o tratamento, para ser bem-sucedido, deve ser um
plano terapêutico o mais personalizado possível e de reconstrução de
identidade e de sonhos para o futuro, coisa que o dependente químico perdeu,
além da obrigatoriedade da reintegração à escola e/ou cursos
profissionalizantes – sem falar na adesão e participação da família (se
houver), considerada fundamental. Isso seria possível com as atuais políticas
públicas ou as previstas no Plano Nacional de Enfrentamento ao Uso do Crack,
do governo Federal?
Como falei anteriormente, avançamos muito, mas ainda falta. Hoje
a ausência de serviços de saúde e equipes profissionais capazes de estruturar
a reinserção social desses indivíduos é o maior empecilho ao sucesso do
tratamento do usuário de drogas no Brasil.
A ação do governo de SP na Cracolândia tem sido polêmica e criticada
por promotores de Justiça de Inclusão Social, Da Infância e Juventude, que
abriram inquérito civil contra abusos do poder público contra
usuários de crack o que seria um problema de saúde pública e não de polícia,
como é o tráfico. Na sua opinião, que tipo de abordagem deveria ser feita à
criança e ao adolescente na chamada Ação Integrada Centro Legal?
Abordagens baseadas em modelos de saúde pública, construídos a partir
das necessidades do paciente. O ambiente e a proposta de tratamento
devem ser acessíveis e atraentes. Ainda assim, uma rede de
profissionais deve ir a campo para buscá-los ativamente, motivando-os ainda
mais. Ações de repressão e cumprimento da lei, se intensas ou
demasiadamente isoladas, podem afastá-los ainda mais.
Levando em consideração as conclusões do livro, a ação do governo e
prefeitura de SP na Cracolândia é eficaz?
Apesar de entender que o consumo de crack a céu aberto deva ser
coibido e que a Cracolândia deva ser extinta o mais cedo possível, dispersar
os usuários sem uma política de saúde como diretriz só piora a situação.
É possível que os jovens viciados em crack que vivem na realidade
brasileira sejam capazes de, se tratados pelo poder público,
"reexperimentar a possibilidade de ter prazer, alegrias e outras emoções
sem estar sob o poder da droga"?
É possível. Hoje em dia, os modelos de tratamento eficazes
recuperam 80% dos indivíduos que entram e permanecem em tratamento. Eis
o grande desafio: fazer com que aqueles que entram, permaneçam
aderidos.
O senhor defende que o tratamento destes jovens é um enorme desafio
para toda a sociedade e tem sido extremamente neglienciado, além de mal
fundamentado e estruturado. Acredita que o crack ainda pode ser combatido
como um problema isolado ou deve ser parte de políticas públicas mais
abrangentes que visem melhor educação, condições de desenvolvimento e
trabalho para os jovens?
O crack é uma consequência da falta de estrutura social, mental e
cultural por que passam esses indivíduos. Sem uma preocupação com essas
três áreas, qualquer tratamento seria ineficaz.
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