Dependência
e transtorno de personalidade têm semelhanças
Agência USP de Notícias
Por Mariana Grazini
Ao articular as definições de personalidade borderline e de adicções, o psicanalista Marcelo Soares da Cruz observou que ambos os transtornos possuem um funcionamento muito próximo, pois baseiam-se em relações de adicções e carregam fortes sentidos dolorosos.
Relações adictivas são relações de dependência, seja de drogas, objetos,
jogos, comportamentos ou mesmo até de pessoas. O Transtorno de Personalidade
Borderline (TPB) também pode ser chamado de Transtorno de Personalidade
Limítrofe (TPL) ou Transtorno Estado-Limite de Personalidade, entre outras
denominações. Para Cruz, trata-se de uma maneira de estruturar uma
personalidade. Quem sofre do transtorno possui relações turbulentas e
oscilantes, apresenta desespero, vazio extremo e se sente constantemente ameaçado
pela perda do outro. No entanto, esse outro dificilmente é de fato visto por
suas características e pode ser facilmente substituído, quase que
“coisificado”.
Cruz pesquisou o tema em sua dissertação de mestrado apresentada ao
Instituto de Psicologia (IP) da USP. O objetivo era verificar se realmente
existia uma relação entre a adicção e a organização de personalidade
borderline.
A dissertação de mestrado teve orientação da professora Leila Salomão de
La Plata Cury Tardivo, do IP. O estudo foi baseado em análises teóricas e se
preocupou mais em buscar a essência das manifestações do sofrimento humano,
apesar de serem algumas experiências com casos clínicos que tenham despertado
os interesses iniciais do psicanalista acerca do assunto abordado.
O mestrado Reflexões sobre a relação entre a personalidade borderline e
as adicções também relatou que a sociedade pós-moderna é carente em amparo e
apresenta um esvaziamento que é dito ser preenchido por objetos e por
propagandas, que vendem, acima de qualquer produto, uma identidade e promessa
de completude. Essa contextualização da sociedade serviu para evidenciar que
alguns casos de adicções e de personalidade borderline podem ser exaltados pela
forma como se dá o mundo atual.
Borderline e adicções
Pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline têm dificuldade em guardar o outro dentro de si sem que esse outro esteja concretamente presente, por isso tamanha insegurança. A automutilação é comum entre os pacientes, tanto para eles se sentirem mais vivos como para perturbar e mobilizar o próximo e assim obter evidências que eles existem para aquela pessoa.
Pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline têm dificuldade em guardar o outro dentro de si sem que esse outro esteja concretamente presente, por isso tamanha insegurança. A automutilação é comum entre os pacientes, tanto para eles se sentirem mais vivos como para perturbar e mobilizar o próximo e assim obter evidências que eles existem para aquela pessoa.
O TPB não é caracterizado como psicótico pois não há rompimento total
com a realidade. É uma condição difícil de se detectar já que ela pode ser
confundida com depressão, bipolaridade ou psicopatia, devido alguns rompantes
de ódio e raiva.
As adicções são socialmente mais difundidas e tratam-se de dependências
por substâncias, sensações, objetos, entre outros. No caso dos adictos, também
há um vazio que se busca preencher. Se o “borderline” tende a encarar o outro
como objeto, o adicto faz o contrário. A droga, o jogo, o sexo, o objeto de
dependência, enfim, passa a ser pessoa e não mais apenas o que realmente é. Há
uma necessidade vital de um objeto que é tratada de forma compulsiva.
“A busca pela droga e o borderline apresentam desespero com pessoas e
vão em busca da recuperação de algo fundamental que foi perdido”, esclarece o
psicanalista. Apesar de os adictos optarem por objetos para compensar “o que
foi perdido”, geralmente, como no transtorno borderline, a ausência é por conta
de alguém. Ou seja, é provável que a falta de alguma figura familiar ou mesmo
social seja um dos principais agravantes da adicção e da personalidade
borderline.
Mudança de olharO autor da pesquisa conta que já teve contato com condições muito radicais daqueles que sofrem de adicções e da personalidade borderline. Ele afirma que, na maioria das vezes, os casos são incompreendidos e a dissertação de mestrado poderá ajudar a desconstruir a imagem daqueles que olham essas situações de fora e pensam que essas pessoas estão apenas se destruindo. “Apesar de se tratar de uma dissertação mais conceitual, ela serve justamente para situações concretas.”
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