|
Educador
físico não pode fazer recomendação a alunos nas academias.
Anvisa classifica produtos para atletas em seis categorias diferentes.
Luna D'Alama Do G1, em São Paulo
Apesar de estarem na moda e serem vendidos em muitas academias do
país, os suplementos alimentares são feitos apenas para atletas de alto
rendimento, profissionais ou não, e só podem ser recomendados por médicos ou
nutricionistas.
"O professor de educação física não deve prescrever nada, senão
se torna um desvio de função. Nós trabalhamos com prevenção, o nutricionista
atua com alimentos e o fisioterapeuta, com patologias", afirma o
presidente do Conselho Regional de Educação Física do Estado de São Paulo
(Cref/SP), Flavio Delmanto.
Ele destaca que esse procedimento é divulgado aos profissionais filiados e
que o mercado tem espaço para todos, desde que respeitada cada atribuição. Em
relação à venda dos suplementos nas academias, Delmanto diz que a
fiscalização deveria ser feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa).
Solonei se prepara para o Troféu Brasil de Atletismo (à dir.) em 2011,
quando ficou em quarto lugar, e ao lado aparece na chegada da 18º Maratona de
SP, em que ficou em primeiro . O educador físico Mauro Guiselini complementa:
"Existem personal trainers que aprendem as regras básicas da
suplementação e sugerem aos alunos. Isso é ruim para a profissão, pois é o
mesmo caso de praticar medicina ilegalmente. Tanto que alguns profissionais
já foram advertidos e até suspensos", diz. De acordo com Guiselini, o
grande problema é vender anabolizantes e hormônio do crescimento no lugar de
suplemento. "Aí o professor vira o cara que vende a droga."
Além disso, esses produtos não podem fazer propagandas enganosas, prometendo
no rótulo uma eventual perda de peso ou ganho de massa muscular. A Anvisa
proíbe palavras ou imagens que façam referência a hormônios ou induzam o
consumidor sobre eventuais efeitos. Estão vetadas, portanto, expressões como
"anabolizantes", "massa muscular", "hipertrofia
muscular", "queima de gorduras" ou "fat burners", e
"aumento da capacidade sexual".
Segundo a nutricionista da área esportiva Mirtes Stancanelli, que atua na
Seleção Brasileira de Basquete Feminino, a idade média dos principais
usuários no país vai dos 20 aos 35 anos, e as mulheres já são um público-alvo
considerável.
O professor de educação física não deve prescrever nada, senão se torna um
desvio de função. Nós trabalhamos com prevenção, o nutricionista atua com
alimentos e o fisioterapeuta, com patologias"
Flavio Delmanto, presidente do Cref/SP
Na hora de determinar o que e quanto uma pessoa vai tomar de suplemento, é
fundamental saber se ela está desprovida de algum nutriente, se a atividade
que desempenha envolve força, e qual o tempo e a intensidade do exercício.
"Quem consome esses produtos sem indicação de um profissional pode ter
problemas no fígado, nos rins e no coração. Ferro demais, por exemplo, pode
se depositar nas artérias e causar cansaço. Muita vitamina C é capaz de
aumentar o risco de pedras nos rins. E, no fígado, pode haver um acúmulo de
gordura. O que a ciência coloca não é de agrado da indústria, mas a verdade é
essa", explica.
Além disso, se o indivíduo for mal orientado, pode aumentar o percentual de
gordura, ter acne, gases e alergias respiratórias, no caso de consumir um
excesso de proteínas. Pode, ainda, apresentar dificuldade de digestão.
No caso da creatina, por exemplo, é permitido tomar por dia apenas 0,3 mg por
quilo de peso corporal, ressalta Mirtes. Quanto ao isotônico, ele só deve ser
uma opção quando há realmente uma desidratação, ou seja, perda de 2% a 3% de
peso corporal em uma única atividade.
Outro ponto que deve ser observado é que, quando a pessoa para de usar o
suplemento, pode levar até dois anos para readquirir a forma anterior, já que
os produtos servem para acelerar esse processo.
Para quem quiser opções naturais e mais saudáveis de vitaminas e proteínas, a
nutricionista sugere suco de frutas, leite, iogurte, queijo, carne vermelha e
ovos.
Seis
categorias
A Anvisa divide os suplementos alimentares em seis categorias diferentes:
hidroeletrolíticos (isotônicos, que hidratam as células), energéticos
(basicamente carboidratos, como maltodextrina, em géis, pó ou suco),
suplementos de proteínas (barrinhas de proteínas e gorduras para recuperação
pós-treino), produtos para substituição parcial de refeições (shakes ou pós
capazes de suprir eventuais necessidades de proteínas, carboidratos e
gorduras), complementos de creatina (proteína para liberação rápida de
energia em atividades de alta intensidade, como atletismo e natação) e
bebidas com cafeína (energéticos e estimulantes).
No Brasil, essas substâncias estão isentas de registro, mas devem seguir um
regulamento técnico da Anvisa de abril de 2010, que estabelece critérios de
classificação, indicação, composição e rotulagem. Também precisam de um
número de notificação junto ao órgão de vigilância sanitária estadual ou
municipal sobre o início da fabricação ou a importação.
Quem toma esses produtos sem indicação de um profissional pode ter problemas
no fígado, nos rins e no coração" Mirtes Stancanelli, nutricionista do
esporte
Cada produto deve informar esse número de notificação, a lista de
ingredientes, as informações nutricionais e o prazo de validade.
Já os suplementos vitamínicos ou minerais – cápsulas que podem suprir
demandas de ferro, cálcio, zinco, etc – não precisam de registro se os
nutrientes não ultrapassarem 100% da ingestão diária recomendada. Se isso
ocorrer, o produto é considerado um medicamento e necessita de autorização da
Anvisa.
Caso as normas para os suplementos alimentares sejam descumpridas, como no
caso de propaganda enganosa, o infrator deve ser penalizado, segundo uma lei
de 1969 e outra de 1977. Também deve ser aberto um processo administrativo sanitário.
Multas são analisadas individualmente, e a empresa pode ter o produto
suspenso por oferecer risco à saúde da população. A fiscalização deve ficar a
cargo da vigilância sanitária local, que precisa encaminhar os dados à
Anvisa, responsável pelas autuações e publicações no Diário Oficial da União.
Complemento
dos treinos
O maratonista Solonei Rocha da Silva, vencedor dos Jogos Pan-Americanos de
2011 e da 18ª edição da Maratona de São Paulo, realizada no dia 17 de junho,
é um dos milhares de atletas brasileiros que usam suplementos para melhorar o
desempenho físico.
Aos 30 anos, o ex-catador de lixo que hoje mora em Bragança Paulista (SP)
corre todos os dias cerca de 30 km, além de fazer fortalecimento muscular uma
vez por semana. Para aguentar a rotina pesada, ele recebe acompanhamento
nutricional na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde foi
orientado a tomar isotônicos, proteínas, sachês e pós de carboidratos.
Isso tudo serve para dar um ganho energético rápido, o que pode ser feito
antes, durante e/ou depois dos exercícios, dependendo de cada caso. No de
Solonei, a suplementação ocorre após o treinamento. E ele já mira na São
Silvestre, em 31 de dezembro.
"Também passei a ter mais nutrientes dos alimentos, como suco de laranja
e leite de vaca e de soja, que eu não ingeria antes. O cálcio do leite ajuda
a fortalecer os ossos, que sofrem muito impacto na corrida. E todo o conjunto
de suplementos faz com que meu corpo responda melhor, sem ficar
musculoso", diz o maratonista, que tem 59 kg em 1,77 m.
Os suplementos atraem também quem não é profissional. Ao frequentar a
academia seis vezes por semana, o estudante de administração Renato Escudero,
de 21 anos, não lembra em nada o adolescente sedentário e obeso que foi um
dia.
Renato Escudero vai à academia seis vezes por semana e enxugou 20 kg.
Há cinco anos, ele foca no ganho de massa magra e está tomando proteínas,
aminoácidos, energéticos e isotônicos (Foto: Arquivo pessoal)
Há quase cinco anos, o morador de São José dos Campos (SP) trocou as comidas
gordurosas e calóricas por proteínas, aminoácidos, energéticos e isotônicos.
Com isso e muita malhação, enxugou 20 kg e começou a focar no ganho de massa
magra. Hoje, exibe 92 kg em 1,87 m de altura.
De segunda a sábado, Renato faz 40 minutos de musculação e 10 minutos de
esteira. Geralmente depois do exercício, ele toma proteína de soro de leite,
glutamina e um complexo de aminoácidos para recuperação muscular. Os produtos
vêm em pó e são misturados com água. “Quando chego em casa, como um sanduíche
de pão integral, queijo branco, peito de peru, atum ou frango”, cita.
O estudante começou a tomar os suplementos por conta própria: interessou-se
pelo assunto, pesquisou e foi atrás. “No começo, tive problema de estômago,
desconforto, passei mal. Mas foi só no primeiro mês. Acho até que foi
psicológico”, diz Renato.
Os produtos para complementar os treinos na academia também caem no gosto das
mulheres que buscam um corpo mais definido. É o caso da fisioterapeuta e
personal trainer Luana Veronesi, de 28 anos, adepta dos suplementos há um ano
e meio. Ela malha desde os 16 anos, mas de dois anos para cá intensificou a
rotina.
A fisioterapeuta e personal trainer Luana Veronesi malha há 12 anos,
mas intensificou a rotina de treinos há dois. Como complemento, ela toma
aminoácidos, carboidrato, proteínas e vitaminas (Foto: Arquivo pessoal)
Luana toma aminoácidos líquidos pré-treino. Antes e depois, aposta em
proteínas isoladas (com sabor de chocolate, baunilha, limão, uva ou
tangerina), que ajudam a queimar apenas a gordura, deixando a massa magra
intacta. Além disso, ela consome o carboidrato maltodextrina antes, durante e
depois da malhação. Quando treina muito pesado, ainda ingere creatina.
A jovem também toma cápsulas manipuladas de vitamina C e E e um polivitamínico,
sempre depois da atividade física. Segundo ela, os comprimidos ajudam na
imunidade e na construção muscular.
"Todos esses suplementos são muito calóricos, por isso diminuí os
carboidratos da alimentação. Não dá para usar isso tudo e ainda ter uma dieta
ruim", diz Luana, que mora em Mogi-Mirim (SP) e vai à academia de
segunda a sábado.
A fisioterapeuta pesa 69 kg em 1,74 m de altura, mas quem avalia seu peso
pela balança se engana. Ela tem apenas 17,5% de gordura no corpo, um padrão
considerado ideal.
Todo o conjunto de suplementos faz com que meu corpo responda melhor, sem
ficar musculoso." Solonei Rocha da Silva, maratonista
"Antes eu tomava sem orientação, mas parava, não sabia ao certo o que
poderia acontecer: engordar, inchar. Agora tenho acompanhamento",
revela.
Substâncias proibidas
Nas normas da Anvisa, também há uma lista de substâncias que não podem entrar
na composição dos alimentos para atletas. Entre elas, estão: guaraná,
erva-mate, ginseng, gengibre, chá verde e aminoácidos como leucina, isoleucina
e valina – que, neste último caso, podem ser registrados como novos
alimentos.
A taurina é permitida em energéticos desde que dentro de um limite de 400 mg
para cada 100 ml de produto. A regra vale tanto para as marcas nacionais
quanto importadas. Outro aminoácido, a carnitina, não pode entrar nesses
suplementos específicos para atleta, mas tem previsão de uso em outras
categorias, como remédios emagrecedores.
Outros tipos de aminoácidos podem ser usados combinados, para melhorar a
qualidade de proteínas do produto, mas não devem ser consumidos de forma
isolada. No caso do ginseng e de outras substâncias, como efedrina e garcinia
cambogia, o uso está liberado na área de medicamentos.
Regras específicas
Sobre os isotônicos, a resolução da Anvisa diz que eles não podem ultrapassar
1.150 mg/l de sódio, e a concentração de potássio não pode ser superior a 700
mg/l. Por outro lado, podem ser adicionados de vitaminas e minerais, mas não
de fibras. As regras também falam sobre o limite máximo de carboidratos e
frutose (açúcar das frutas) no preparo desses líquidos.
No caso dos energéticos ou carboidratos, o suplemento não pode conter mais de
75% do valor energético proveniente dessa fonte. Em gramas, não deve passar
de 15 g na porção pronta para o consumo. A Anvisa diz, ainda, que esses
produtos podem ter gorduras e proteínas, mas não fibras e substâncias
consideradas "não nutrientes".
Todos esses suplementos são muito calóricos, por isso diminuí os carboidratos
da alimentação. Não dá para usar isso tudo e ainda ter uma dieta ruim" Luana
Veronesi, fisioterapeuta e personal trainer
Quanto aos suplementos de proteínas, devem ter pelo menos 10 gramas do
componente em cada porção. Metade das calorias precisa ter origem proteica e
também não é permitido adicionar fibras ou não nutrientes.
Em relação aos suplementos para substituição parcial de refeições, os famosos
shakes, existe uma quantidade máxima permitida de carboidratos (de 50% a
70%), proteínas (de 13% a 20%) e gorduras (até 30%) sobre o total do valor
energético. O produto deve fornecer pelo menos 300 kcal por porção. Além
disso, o teor de gorduras saturadas e trans não pode ultrapassar 10% e 1%,
respectivamente. E, ao contrário dos anteriores, esses complementos podem ter
fibras.
A Anvisa também prevê critérios para os suplementos de creatina, cuja
concentração deve ficar entre 1,5 g e 3 g por porção. O grau de pureza da
substância precisa chegar a 99,9%. E não podem ser adicionados carboidratos
nem fibras.
Por fim, os complementos de cafeína não podem ficar abaixo de 210 mg nem
acima de 420 mg por porção. Não pode haver adição de nutrientes ou não
nutrientes.
Alimentos que exigem registro no
Brasil
Os alimentos que são obrigados a ter registro da Anvisa no país são: produtos
funcionais (aqueles com ação comprovada sobre colesterol, intestino ou
envelhecimento), substâncias probióticas (iogurtes que facilitam o
funcionamento intestinal), alimentos infantis (como papinhas), produtos para
nutrição enteral (por sonda em pacientes hospitalizados), embalagens recicladas
para contato com alimentos e os chamados novos alimentos ou ingredientes
(cápsulas, comprimidos e tabletes de vários componentes, como óleos,
derivados de soja, fitoesteróis, quitosana e licopeno).
Nessa última categoria, encontram-se também produtos feitos de frutas ou
vegetais submetidos a processamento de secagem ou desidratação.
|