domingo, 20 de novembro de 2011

Consultório móvel de rua para tratar dependentes em SP



São Paulo terá consultório móvel para tratar viciados em crack, diz ministro da Saúde



Folha de São Paulo - FÁBIO BRANDT  DE BRASÍLIA

As unidades -chamadas “consultórios de rua”- são como “trailers” que funcionarão 24 horas. As equipes, compostas por médicos, enfermeiros e psicólogos, terão autonomia para decidir pela internação involuntária dos pacientes, disse o ministro. “Se o profissional de saúde avaliar que aquela pessoa corre risco de vida, nós temos protocolos claros da internação involuntária, inclusive defendida pela Organização Mundial da Saúde”, afirmou.
O ministro falou sobre o assunto no programa “Poder e Política – Entrevista”, conduzido pelo jornalista Fernando Rodrigues no estúdio do Grupo Folha em Brasília. O projeto é uma parceria do UOL e da Folha.
No Brasil, segundo Padilha, já há 80 consultórios de rua em cidades grandes. São Bernardo, Osasco, Goiânia e Brasília são algumas das cidades pioneiras no projeto, iniciado em 2010
LULA, DILMA E ELEIÇÃO
Padilha falou sobre polêmica suscitada com o início do tratamento que o ex-presidente Lula faz de um câncer na laringe. Para ministro, o plano médico do líder petista deve custear o tratamento porque foi pago regularmente. Mas disse que a polêmica é oportuna para levantar debate sobre necessidade de se melhorar do SUS.
Sobre a participação do PT na próxima eleição presidencial, em 2014, Padilha afirmou que decisão “vai acontecer no momento certo” e que caberá à presidente Dilma conduzir as discussões.
A seguir, trechos em vídeo da entrevista de Alexandre Padilha. Mais abaixo, vídeo com a íntegra da entrevista. A transcrição está disponível em texto.



Governo vai aumentar consultórios móveis para atendimento a usuários de drogas



Equipes irão até cracolândias e outros locais de concentração de dependentes químicos
Gazeta do Povo
O ministro da Saúde Alexandre Padilha disse neste sábado (19), em São Bernardo do Campo (SP), que o governo federal vem estudando um conjunto de ações envolvendo vários ministérios para lançar, em breve, um plano amplo de enfrentamento ao crack e outras drogas, que inclui o serviço de consultórios móveis – também chamados de consultórios de rua - especializados no primeiro atendimento aos usuários de drogas.
“Uma das estratégias são os consultórios nas ruas. Haverá profissionais [de saúde] em unidades móveis que irão para as ruas, sobretudo onde tem as cracolândias ou cenas de usos [de drogas], para fazer uma busca ativa nessas pessoas que são dependentes químicas, oferecendo tratamentos para elas”, disse o ministro, em entrevista à imprensa antes de discursar para trabalhadores e sindicalistas presentes ao 7º Congresso do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
Segundo Padilha, 80 consultórios de rua já estão atuando nos grandes centros do país, e a expectativa é de o programa ser levado para outras cidades. “Os consultórios nas ruas vão avaliar se a pessoa tem indicação de internação, se ela tem risco de vida. Sou absolutamente contra qualquer política de recolhimento compulsório. Isso não é feito pelo pessoal de saúde, mas por policiais que, as vezes, não estão preocupados sobre em qual lugar essa pessoa vai ficar. Temos a política de fazer uma busca ativa [por dependentes]. Em cada cidade, esse modelo estará adaptado à sua realidade”, disse.
O ministro declarou ainda que os consultórios de rua serão instalados em todas as cidades do ABC Paulista e também na capital. “Na conversa que tivemos com o prefeito [Gilberto] Kassab e com as secretarias municipal e estadual de saúde, acreditamos que houve interesse da prefeitura em apoiar a melhoria da rede de saúde, sobretudo as ações de sair em busca ativa, onde as pessoas estejam. O Ministério da Saúde quer ajudar o município a ter mais médicos, enfermeiros e profissionais nas ruas exatamente para que a primeira abordagem seja feita por profissionais de saúde”.
Segundo Padilha, a presidenta da República Dilma Rousseff tem exigido que esse novo plano de enfrentamento ao crack consista em uma ação conjunta, envolvendo os ministérios da Justiça, Educação e do Desenvolvimento Social, além da Saúde. “A presidenta tem exigido que esse plano tenha ações de vários ministérios. A presidenta Dilma, a ministra-chefe da Casa Civil [Gleisi Hoffmann] e o ministro da Justiça [José Eduardo Cardozo] têm coordenado esse detalhamento do plano. Queremos um plano que não seja só um anúncio de ações, mas medidas acontecendo de imediato”, disse o ministro sem detalhar quando o plano será lançado.
Durante discurso, o ministro falou também da necessidade dos estados “apertarem a fiscalização” sobre a Lei Seca, proibindo que pessoas alcoolizadas dirijam. “Se bebeu, não pode dirigir. Os estados que apertaram a fiscalização, como é o caso do Rio de Janeiro, reduziram em quase 30% os acidentes de carro e de moto”, disse.
Ao final Padilha destacou a necessidade de discutir formas de financiar a saúde no país e sugeriu que esse debate seja feito junto com a reforma tributária.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"Maconha não é mais uma droga leve."



"Maconha não é mais uma droga leve"
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João Goulão
"Maconha não é mais uma droga leve"

Formulador da política de entorpecentes portuguesa, considerada uma das melhores do mundo, diz que a maconha está quimicamente mais potente e afirma que o Brasil não está preparado para a descriminalização
por Wilson Aquino
CRACK NO BRASIL
"A motivação para o tratamento poderia ser trabalhada", diz
Adetenção de três jovens fumando maconha no campus da Universidade de São Paulo motivou a rebelião dos estudantes – que terminou na delegacia – contra a polícia nas últimas semanas. Como tratar a questão das drogas é um tema sempre polêmico no Brasil, por isso a experiência internacional pode ser útil para o País. Atualmente, Portugal tem um dos melhores modelos do mundo de prevenção e combate aos entorpecentes. Apesar de a descriminalização do consumo ser o item de maior visibilidade, o sucesso do programa passa pela criação de uma rede específica para o dependente.
“Faz mais sentido tratar uma pessoa doente no sistema de saúde do que no prisional”, afirma o médico português João Goulão, 56 anos, presidente do Conselho de Administração da Agência Europeia de Informação sobre a Droga (OEDT) e do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) de Portugal. Para o especialista, só descriminalizar o consumo não resolve. “O fenômeno da droga tem de ser abordado por um órgão, a Justiça ou a Saúde. Não podemos retirá-la da Justiça e não ter as respostas da Saúde”, diz ele, que há 30 anos trabalha na recuperação de viciados.
"Quanto mais cedo prevenirmos o consumo de álcool, menor a
probabilidade de a pessoa se tornar viciada em qualquer coisa"
"Antes tínhamos 100 mil usuários de heroína, hoje não chegamos aos 30 mil.
As drogas eram a primeira preocupação dos portugueses, hoje ocupam o 13º lugar"

ISTOÉ - Qual a porta mais comum para o jovem entrar nas drogas?

JOÃO GOULÃO - A escalada começa com bebida alcoólica, cigarro e maconha. Mas não é, necessariamente, sempre assim. Hoje, as pessoas têm procurado direto as drogas mais prestigiadas: estimulantes, como a cocaína e o ecstasy. Felizmente, a heroína está desprestigiada; os jovens assistiram à destruição das gerações anteriores, a depauperação física e mental, e a rejeitam. Infelizmente, o perfil do usuário da heroína é bastante semelhante ao do crack no Brasil. O fato é que, quanto mais cedo prevenirmos o consumo de álcool, menor a probabilidade de a pessoa se tornar viciada em qualquer coisa.

ISTOÉ - Maconha é uma droga leve?
 
JOÃO GOULÃO - Maconha não é mais uma droga leve. A maconha hoje tem uma concentração do seu princípio psicoativo, o THC, muito maior do que dez anos atrás. Aliás, nenhuma droga pode ser considerada leve. O que realmente interessa é a importância que a droga ganha na vida da pessoa. Se for dependente da substância, pouco importa que ela seja leve ou pesada. Por isso descriminalizamos o consumidor de todas as drogas.

ISTOÉ - Como a lei da descriminalização do consumidor foi implantada em Portugal?

JOÃO GOULÃO - A descriminalização foi proposta por uma comissão da qual fiz parte, passou no Parlamento e a lei entrou em vigor em 2001. O impacto das drogas na vida da comunidade baixou drasticamente. O problema da toxidependência era tão devastador que, quando aconteceu a descriminalização, o povo apoiou, pois quase todos tinham dependentes na família. Costumavam dizer: “Meu filho não é um bandido. É um desgraçado.” Antes tínhamos 100 mil usuários de heroína, hoje não chegamos aos 30 mil. A criminalidade ligada à dependência baixou. Tanto que, hoje, as drogas, que eram a primeira preocupação dos portugueses, ocupam o 13º lugar.
 
ISTOÉ - Antes da lei o que era feito com os dependentes?
 
JOÃO GOULÃO - Iam para o tribunal. Na maior parte dos casos, não eram condenados à prisão. Os juízes optavam por penas alternativas ou tratamento compulsório em unidades terapêuticas. Não existe nada pior do que uma lei que não é cumprida. A lei determinava a reclusão, mas os dependentes não eram condenados à cadeia.

ISTOÉ - O sr. acredita que Brasil esteja preparado para descriminalizar o consumo de drogas?
 
JOÃO GOULÃO - Eu diria que no Brasil há uma carência de respostas públicas. O fenômeno da droga e da dependência tem de ser abordado por algum órgão, a Justiça ou a Saúde. Não podemos retirá-la da Justiça e não ter as respostas da Saúde. As próprias autoridades policiais, ao terem uma abordagem mais amigável em relação aos usuários, necessitam de estruturas de saúde que possam se ocupar deles. Senão, fica o vazio: nem há perseguição policial nem oferta de tratamento.

ISTOÉ - A tolerância com as drogas no mundo do entretenimento não é uma influência negativa para os jovens?

JOÃO GOULÃO - É um mau modelo. Procuramos contrabalançar isso convidando alguns artistas para participar de campanhas. O problema é que depois se descobria que eles também eram usuários. O nosso trabalho preventivo é permitir que as pessoas façam suas escolhas informadas. Usar ou não usar é uma questão individual. Mas consciente dos riscos.
 
ISTOÉ - Como funciona a política de drogas em Portugal?
 
JOÃO GOULÃO - O sistema de cuidados com a saúde dos toxicodependentes é dos mais perfeitos do mundo. Pena que somente seja referida como exemplar a questão da descriminalização, que está longe de ser a nossa melhor estratégia. É apenas um componente importante, mas só demos esse passo depois de termos fixado a responsabilidade de lidar com o problema no Ministério da Saúde mais do que no Ministério da Justiça. O dependente é doente, precisa de ajuda médica e não de prisão. O interessante da descriminalização foi tornar nosso sistema coerente. Temos uma população de dez milhões de habitantes e uma rede de saúde dedicada apenas aos usuários de drogas que envolve cerca de dois mil profissionais, 70 unidades de ambulatório em todo o país e mais de 100 unidades terapêuticas com cerca de dois mil lugares disponíveis. Tudo gratuito.
 
ISTOÉ - E qual é o papel da polícia nesse processo?

JOÃO GOULÃO - É assim: o usuário está consumindo a droga e é interceptado pela polícia. Dali, é conduzido à delegacia, onde é identificada a substância. Se tiver mais do que a quantidade considerada para uso pessoal, presume-se que seja tráfico e ele vai para o sistema criminal. Existe uma tabela para cerca de dez dias de consumo que dá 15 gramas de maconha, cinco de haxixe, uma de heroína, etc. Se tiver menos, é usuário e será intimado pela polícia a se apresentar em uma comissão do Ministério da Saúde chamada Comissão para Dissuasão da Toxicodependência, constituída por um jurista, um psicólogo e um assistente social. A pessoa é obrigada a se apresentar em três dias. Primeiro, avalia-se se é um dependente ou um consumidor de ocasião. No caso do dependente, a comissão o convida para se tratar. O dependente vive dividido entre o desejo de parar e a vontade de consumir. Um pequeno empurrão pode ser determinante para que se aproxime do sistema de saúde ou da droga.

ISTOÉ - Não fica o registro da passagem dele na polícia?

JOÃO GOULÃO - Se o dependente aceitar o tratamento, o processo é suspenso por alguns meses e não é aplicada nenhuma sanção. Se nesse período ele não voltar a ser interceptado pela polícia consumindo droga, o processo é extinto, sem deixar rastro, registro criminal, sem mancha alguma na vida pregressa dele.

ISTOÉ - E se for pego novamente?

JOÃO GOULÃO - Aí pode ser aplicada uma penalidade. No caso do dependente, nunca é multa em dinheiro. Pode ser proibição de frequentar determinados locais, privação de benefícios sociais, pode ser proibido de viajar para o exterior, de dirigir. É uma lista longa, que inclui ainda trabalho comunitário. Prisão nunca.

ISTOÉ - Não há internação?
 
JOÃO GOULÃO - Quem assumir o acompanhamento do dependente discutirá com ele qual a melhor via de tratamento, e a internação é uma delas. O nosso problema principal é a heroína e, neste caso, trata-se da terapia de substituição pela (medicação) metadona. Há várias outras modalidades terapêuticas.
 
ISTOÉ - E quanto aos consumidores recreativos?

JOÃO GOULÃO - A equipe técnica tenta identificar quais os fatores que levam a pessoa a caminhar para a dependência. É avaliada a história familiar, social e o perfil psicológico do indivíduo. A intenção é interromper o mais precocemente possível esse trajeto.

ISTOÉ - E se eles voltarem a se drogar?
 
JOÃO GOULÃO - Se reincidir no período de suspensão do processo, terá a obrigação de se apresentar periodicamente ao sistema, onde será avaliado. Se continuar, pode ser multado em até 500 euros e receber outras penas.

ISTOÉ - Vocês tratam somente os usuários flagrados pela polícia?
 
JOÃO GOULÃO - Não. Essa é uma das vias de acesso ao nosso sistema de tratamento.Tratamos por ano sete mil pessoas encaminhadas pela Comissão de Dissuasão. E temos por volta de 50 mil pessoas em tratamento nos nossos centros. Muitos vão voluntariamente, enviados por médicos ou pela família. É um sistema forte. Nosso orçamento é de 75 milhões de euros por ano. Atualmente, estamos com algumas dificuldades em função da crise econômica, mas temos conseguido sucesso. Tanto que há três anos estendemos nosso programa aos dependentes de álcool.

ISTOÉ - E a reação dos policiais?
 
JOÃO GOULÃO - A polícia não via sentido em prender viciados. Ela não tem mais que instruir processo nem fazer investigação sobre dependentes. A polícia passou a ter mais tempo para se dedicar às investigações sobre o grande tráfico. A eficácia aumentou enormemente na apreensão de carregamentos de drogas.
 
ISTOÉ - Não se prende o usuário, mas como ele compra o que é proibido?
 
JOÃO GOULÃO - Os traficantes passaram a fazer mais viagens. Em vez de andar com grandes quantidades, carregam o mínimo. Caso sejam interceptados, alegam que é para consumo próprio. Mas, se a polícia tiver evidência de que era para venda, mesmo com as quantidades toleradas, ele vai para o sistema prisional. Assim como pode ocorrer o contrário. O sistema é flexível.

ISTOÉ - Na Holanda existem cafés e bares que vendem maconha. Em Portugal existe isso?
 
JOÃO GOULÃO - Não. A Holanda não descriminalizou o consumo. Foi uma tentativa de separar o comércio das drogas ditas leves das pesadas e para isso foi autorizada a venda das chamadas drogas leves. Mas a coisa não ocorreu como se esperava. Muita gente ia para a Holanda somente para se drogar, é o turismo da droga! Os holandeses já determinaram que pessoas de outros países não podem mais comprar maconha no coffee shop. Mais dia, menos dia, haverá proibição total.

ISTOÉ - Qual a sua avaliação sobre o modo como o Brasil trata seus dependentes?

JOÃO GOULÃO - Parece-me necessário um esforço extra para haver respostas de saúde dirigidas à população dependente, como acesso facilitado a tratamentos. As instituições de saúde generalistas não têm capacidade de atender esse público. É complicado uma mesma unidade atender uma grávida e um drogado. No Brasil seria bom criar uma ampla rede de centros, mas pelas dimensões do País é difícil. Cada Estado ou município deveria assumir essa responsabilidade.
 
ISTOÉ - Menores das Cracolândias são internados à força. Como avalia isso?

JOÃO GOULÃO - O tratamento compulsório é complicado. Poderiam ser criadas instâncias em que fosse trabalhada a motivação para o tratamento.

Qual o efeito da psicoterapia no cérebro?


O efeito da psicoterapia no cérebro.

Selma Boer e Maria Alice Fontes



A explicação sobre o comportamento e as emoções do ser humano sempre foram alvo de investigação desde os tempos da Antiguidade. A trajetória das neurociências, um campo de estudo que busca explicar as relações entre o  comportamento e a atividade cerebral, vem se desenvolvendo rapidamente devido ao avanço do aparato tecnológico e médico-científico.

Quais os principais avanços das neurociências?

O avanço da tecnologia possibilitou o desenvolvimento de técnicas de neuroimagem, como Tomografia por Emissão de Pósitron (PET), a Ressonância Nuclear Magnética Funcional (fMRI) e a Tomografia por Emissão de Fóton Único (SPECT), que têm sido cada vez mais utilizadas em pesquisas científicas sobre o funcionamento cerebral associado aos transtornos mentais e seu tratamento. Através desses métodos, é possível conhecer as estruturas e o funcionamento cerebral in vivo.

Um dos resultados desse avanço foi a descoberta de que há uma neurobiologia das emoções, caracterizada principalmente pela presença de neurotransmissores, substância contida em um neurônio, secretada por ele e transmitida ao neurônio seguinte. Dessa forma, entendemos que a atividade neuronal, através dos neurotransmissores como a serotonina, a dopamina, a adrenalina, entre outros, tanto desencadeiam, como são reflexos do comportamento e das emoções humanas, funcionando num processo de retro-alimentação.

Qual o papel da psicologia dentro das neurociências?

A psicologia, como disciplina das neurociências, vê o funcionamento do indivíduo como reflexo da inter-relação entre a cognição, as emoções e o pensamento; assim, o comportamento e as emoções de uma pessoa são determinados, em grande parte, pela maneira como ela pensa sobre si mesma e sobre o mundo a sua volta. Quando há distorções cognitivas, ou seja, a percepção de si e do mundo encontram-se prejudicadas, surgem os distúrbios emocionais, e com elas a necessidade de tratamento.

A psicoterapia é o tratamento das desordens psicológicas e emocionais, através de intervenções cognitivas para promover o bem-estar das pessoas. A psicoterapia pode ser individual, familiar, em grupo ou de casal. Através das técnicas psicoterápicas, são apontadas para o paciente as distorções de pensamento relacionadas às suas dificuldades emocionais, buscando diminuir o sofrimento emocional, e favorecer o desenvolvimento de comportamentos mais ajustados.

Nos últimos anos, pesquisas do campo das neurociências têm buscado identificar os correlatos neurais associados aos sintomas de pânico, ansiedade e depressão e assim, conhecer os mecanismos biológicos envolvidos tanto nas doenças e também na psicoterapia. Neste sentido, as neurociências tem buscado  elucidar os efeitos da psicoterapia no cérebro, e as pesquisas realizadas até o momento têm comprovado que existem mudanças neurais subjacentes à psicoterapia, correlacionadas com a melhora dos sintomas dos pacientes.

Quais são os exemplos que a psicoterapia modifica o cérebro?

Um estudo recente com pacientes portadores de depressão (Ritchey et al., 2011), sem o uso de medicação, apontou que a psicoterapia promove um aumento global na ativação da córtex pré-frontal ventromedial, e maior excitação na amígdala, núcleo caudado e hipocampo (uma das regiões cerebrais envolvidas na expressão das emoções).

Outra pesquisa realizada na Universidade da Califórnia mostrou, através de estudos de neuroimagem, uma redução da atividade metabólica no núcleo caudado estrutura localizada no hemisfério cerebral direito, com papel importante no sistema de aprendizado e memória) em pacientes com Transtorno Obsessivo-Compulsivo, que passaram por psicoterapia no decorrer de 10 semanas.

No caso de indivíduos com fobias específicas (fobia de animais, de sangue), os estudos de neuroimagem (Porto et al., 2009) mostraram uma diminuição da atividade em áreas límbicas e paralímbicas do cérebro (responsáveis pelo controle emocional do comportamento, memória). Os achados de todas essas pesquisas apontavam para uma correlação com a melhora dos sintomas dos pacientes e mudanças na atividade cerebral.
Por que esses achados são importantes para a ciência?

Os circuitos cerebrais e nervosos são muito mais plásticos do que se supunha anteriormente. A psicoterapia cognitiva pode alterar o funcionamento cerebral de forma que as memória recolhidas pelo hipocampo são reorganizadas de uma maneira significativa pelos lobos frontais e consolidados novamente na memória. O processo de sentir alguma coisa, falar sobre isso, expressar as emoções, ligando isso a uma lembrança tem consequencias duradouras e benéficas para a qualidade de vida emocional dos pacientes.

O conhecimento de mecanismos cerebrais envolvidos na psicoterapia reforçam sua credibilidade como um método eficaz para tratamento dos transtornos emocionais e mentais. As técnicas de neuroimagem possibilitam identificar as principais vias neuronais implicadas nos transtornos emocionais, e assim favorecem o desenvolvimento de tratamentos mais apropriados a cada um deles.


Referências Bibliográficas

Cozolino J. The Neuroscience of Psychotherapy: Building and Rebuilding the Human Brain. Norton & Company Inc, 2002.

Ritchey M, Dolcos F, Eddington KM, Strauman TJ, Cabeza R. Neural correlates of
emotional processing in depression: changes with cognitive behavioral therapy and
predictors of treatment response. J Psychiatr Res. 2011 May;45(5):577-87.
Linden, DEJ. How psychotherapy changes the brain – the contribution of functional neuroimaging.
Molecular Psychiatry; 11, 528–538, 2006.

Peres, JFP.; Nasello, AG. Achados da neuroimagem em transtorno de estresse pós-traumático e suas implicações clínicas.
Rev Psiq Clín; 32 (4); 189-201, 2005.

Porto PR e cols. Does CBT change the brain? A systematic review of neuroimaging in anxiety disorders. J Neuropsychiatry Clin Neurosci.;  21:2, 2009.

Roffmann JL e cols. Neuroimaging and the functional neuroanatomy of psychotherapy.
Psychological Medicine; 35, 1385–1398, 2005.


Clínicas populares são fechadas no RJ


Duas clínicas populares para dependentes químicos são fechadas no Rio


R7
Pessoas que estavam em tratamento tiveram que receber alta
O tratamento contra a dependência química em clínicas particulares é caro e tão difícil quanto se livrar das drogas é conseguir uma vaga de internação na rede pública. Para piorar, das três clínicas populares que existiam em todo o Estado do Rio de Janeiro, duas foram fechadas, uma delas em Santa Cruz, na zona oeste da cidade do Rio.
Segundo informações, o convênio que mantinha o funcionamento da unidade não foi renovado pelo Governo do Estado e os dependentes químicos que estavam em tratamento tiveram que receber alta antecipadamente.
De acordo com o presidente da Associação dos Dependentes Químicos, Marcelo Rocha, não há mais alternativas para internar as pessoas.
- Com esta clínica fechada não há mais alternativa para internar o usuário de drogas que é recolhido das ruas. Na cidade do Rio e no Estado, nós sabemos que somente em Valença, talvez, alguém consiga vaga, porque em Barra Mansa ou outros lugares não se recebe mais dependentes químicos para tratamento.
Em nota, a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos explicou que um novo convênio será assinado na próxima quinta-feira (17) e a clínica voltará a funcionar.
Por que será que o governo não renovou o contrato com as Clínicas? Cadê os leitos reservados a psiquiatria nos hospitais públicos? 
Internação em Cliníca não é a única solução existente para o dependente químico, ela causa somente a abstinência da droga, não necessariamente façam o tratamento, pois maioria das Clínicas não possuem equipe técnica multiprofissional para o acompanhamento dos pacientes, portanto amenizam o problema enquanto o dependente está internado, mas quando ele sai não tem estrutura psicológica para permanecer longe da sua droga de preferência.

Filhos de usuários de Crack podem ter má formação.


Filhos do crack nascem com má formação e crise de abstinência


Araraquara Notícias (Araraquara.com) 

EM ARARAQUARA, ESTUDO DO MÉDICO VALTER CURI RODRIGUES REVELA AS CONSEQUÊNCIAS DO USO DA DROGA DURANTE A GESTAÇÃO

Por Marco Antonio dos Santos
Na Maternidade da Santa Casa de Araraquara, repousa em uma incubadora um menino com três meses de vida, filho de dois usuários de crack.
A criança nasceu prematura, ainda no sexto mês de gestação, pesando 900 gramas. O peso ideal para um recém-nascido, em gestação normal, é três quilos. Não bastasse estar fora do peso, a criança é cega de um olho, possível consequência da gravidez embalada pela fumaça da droga inalada pela mãe.
Quando os médicos revelaram a frágil saúde de menino, os pais preferiram trocar acusações sobre quem dos dois tinha fumado mais crack durante a gravidez.
Quem revela o caso é o coordenador do curso de Medicina do Centro Universitário de Araraquara (Uniara), Valter Curi Rodrigues, que revela que o drama vivido pelo recém-nascido não é inédito na cidade. "Este ano, fizemos os partos de três crianças filhas de mães usuárias de crack e todas apresentam comprometimento de saúde", diz.
Especialista em pesquisa genética, Rodrigues estuda os efeitos de drogas pesadas como cocaína e crack sobre a gestação. Segundo o médico, como tudo o que a gestante consome é transmitido para o bebê, os efeitos da droga também passam para a criança. "Cocaína e crack são aceleradores do metabolismo e aumentam a pressão sanguínea, mas imagine o estrago disto em bebês que nem estão com o sistema circulatório pronto."
Observação comprovada em crianças nascidas em Araraquara mostram que os filhos de usuários sofrem de microcefalia, alterações no sistema nervoso, degeneração ocular e cardiopatia congênita, também apresentada em filhos de alcoólatras. "As crianças desenvolvem síndrome de abstinência fetal. Elas se tornam viciadas nos entorpecentes consumidos pelas mães", garante. Isso significa que têm tremores contínuos e convulsão por falta da droga.
Na fase adulta, estas crianças são propensas a ter distúrbio de atenção, como hiperatividade. E, quando os entorpecentes não provocam má formação do feto, podem acelerar as contrações e causar aborto, explica o médico.
Em uma discussão polêmica, o médico defende a esterilização de dependentes da droga. "Uma jovem de 25 anos teve três filhos, todos com problemas, mas, por lei, não podemos ligar as trompas. Quantas crianças assim ela ainda vai gerar?", questiona.
Crianças têm distúrbio de atenção
A psicopedagoga Maria Carla Rodrigues Pereira trabalha diariamente com filhos de usários de drogas no Jardim das Hortênsias, Região Sudeste de Araraquara, e relata situações preocupantes. "As crianças são agitadas e não conseguem se concentrar em nenhuma atividade", revela a educadora.
O que mais impressiona Maria Carla são os relatos das crianças que assistem aos pais entorpecerem-se na frente delas com bebidas alcoólicas ou com crack. "Chegam a oferecer para os filhos e convidá-los para consumir junto."
Segundo a psicopedagoga, a maioria destas crianças abandona as escolas devido aos problemas que enfrentam em casa, tornando seu futuro ainda mais incerto.
Nove em cada dez pessoas internadas em clínicas de reabilitação em Araraquara são usuárias de crack. Os outros 10% dividem-se entre álcool, cocaína e óxi

Análise
Droga é o maior desafio dos conselheiros tutelares
"O maior problema que enfrentamos são os casos de crianças e adolescentes que vivem com pais que são usuários de drogas, em especial o crack. A gente recebe a denúncia, averígua e, se for o caso, leva os filhos para um abrigo. O mais importante é não revelar onde fica este lugar para evitar que os pais tentem recuperá-los. Eles podem exigir a devolução dos filhos, mas nem sempre têm condição psicológica. Tivemos um caso de uma mãe que fumou crack na gravidez. Quando a criança nasceu, o Conselho interveio, tirou a guarda da criança dela e entregou para uma avó. Hoje, ela faz tratamento e, se provar que está recuperada e não vai ter recaída, terá a guarda de volta. Mas tudo isto é feito com acompanhamento de assistente social, psicóloga e médico. Nossa maior preocupação é voltada para os filhos, para que eles não sejam afetados psicologicamente pelos lares sem estrutura familiar adequada. E este problema aumenta a cada dia para todos os Conselhos."
Manoel Novaes

Conselheiro tutelar
Casos são impressionantes
Há duas semanas, quando foi visitar seu filho recém-nascido na maternidade, o presidente do Conselho Municipal Antidrogas (Comad), Márcio William Servino, presenciou uma usuária de crack entregar para doação a criança que tinha acabado de ter. "Realmente, a situação está ficando cada vez mais triste."
Em Américo Brasiliense, a assistente social, Walkiria do Amaral trabalha em um abrigo para crianças onde quatro dos 11 meninos acolhidos vêm de famílias de usuários de drogas. "Dois têm chance de serem reintegrados às famílias, mas os outros dois, infelizmente, terão de ir para a adoção."
O delegado da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise), Gerson Matiolli enxerga piora no quadro. "Estes dias flagrei uma menina com crack ao lado da filha de 2 anos, é muito triste."
Efeitos do crack nos bebês

- Tremores
- Má formação
- Metabolismo acelerado
- Aumento da pressão sanguínea
- Microcefalia
- Degeneração ocular
- Cardiopatia congênita
- Convulsão
- Hiperatividade
- Déficit de atenção
* As contrações durante a gestação também podem causar aborto



CFP e CRPs questionam internações compulsórias.

CFP e CRPs entregam ao MPF representações sobre internações e abrigamentos compulsórios

www.drogasecidadania.cfp.org.br
Em ação coordenada, o Conselho Federal de Psicologia e três Conselhos Regionais (de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo), entregam representações ao Ministério Público Federal questionando políticas de internações e abrigamentos compulsórios por violação à Constituição Federal. A representação foi protocolada às 12h30 desta sexta-feira, 11 de novembro, em Brasília, pela conselheira-secretária do CFP, Deise Nascimento. Documentos serão entregues também ao MPs em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, estados nos quais políticas de internação e abrigamento vêm ganhando espaço.
Em Minas Gerais, recentemente o Governador editou o Decreto n. 45.739/2011, instituindo auxílio financeiro temporário à família que assuma as despesas de tratamento de usuário de álcool ou outras drogas, com vistas ao custeio das despesas da internação voluntária do usuário em entidade credenciada pela Subsecretaria de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado de Defesa Social, no valor total de R$ 900,00 mensais.
A representação questiona “existência de uma política pública que acaba por incentivar a internação compulsória em instituições, apesar de usar o termo ‘voluntária´, em detrimento de ações mais eficazes. Isso porque incentiva a família do usuário a se socorrer da solução aparentemente mais fácil, mas que não resolve o problema da dependência química”.
No Rio de Janeiro, a resolução nº 20/2011, da Secretaria Municipal de Assistência Social, cria Protocolo de Abordagem à Pessoa em Situação de Rua. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) já declarou a resolução ilegal por inobservância das normas nacionais e internacionais sobre os direitos da criança e do adolescente e da política nacional de atendimento à saúde mental, sugerindo seu imediato sobrestamento.
Os Conselhos concordam e defendem os princípios e diretrizes do SUS, principalmente da participação, que garante o direito do usuário de ser esclarecido sobre a sua saúde, de intervir em seu próprio tratamento e de ser considerado em suas necessidades, em função de sua subjetividade, crenças, valores, contexto e preferências.
Em São Paulo, tem-se visto o envio de crianças e adolescentes para instituições de internamento de forma compulsória – e, portanto, involuntária –, sob a justificativa de suposto tratamento da dependência de crack. Na representação, a prática é questionada: “Contudo, não se coloca em pauta algumas questões que são anteriores a esta intervenção, tais como: como essas crianças e adolescentes chegaram à condição de morar nas ruas e de dependência de drogas? O direito, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de receber proteção integral com prioridade absoluta foi garantido de fato a estas crianças e adolescentes?”.
Na avaliação dos Conselhos, ao ser internado, o indivíduo perde qualquer chance de inclusão social, ficando à margem da sociedade, sem qualquer autonomia. As políticas públicas de retirada das pessoas do convívio em sociedade, na prática, “cassa” os direitos políticos e civis de cidadãos miseráveis. Cassa-se inclusive o direito constitucional de ir e vir.
A argumentação legal está embasada na premissa de que o tratamento “de doenças mentais ou da temática de álcool e drogas não comporta mais a segregação absoluta, sendo que a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes (art. 4º da Lei n. 10.216/01)”, afirmam os conselhos, para os quais “ os preceitos da Lei sob exame vêm sendo ameaçados pela adoção de políticas públicas equivocadas”.
O art. 4º determina que a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. Diz também que “o tratamento visará, como finalidade permanente, a reinserção social do paciente em seu meio”, em seu parágrafo primeiro.
Demanda
Os Conselhos solicitam ao Ministério Público a adoção de medidas legais, inclusive com o ajuizamento das ações competentes, que visem à suspensão imediata de práticas de internação e abrigamento compulsórios pelos governos federal e estaduais, de modo a privilegiar a utilização de medidas sócio-educativas aos usuários de crack, álcool ou outras drogas, como também aos portadores de doenças mentais.
Soluções
A solução que se pretende alcançar deve privilegiar os princípios de um cuidado em meio aberto, humanizado, com equipes multiprofissionais qualificadas, que tenham condições de trabalho dignas garantidas, no âmbito das políticas de saúde mental e coletiva e da assistência social, que operem por meio dos equipamentos do Sistema Único de Saúde (SUS), do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente, afirmam os Conselhos de Psicologia. “Para que não haja a exclusão do usuário de crack, álcool e outras drogas, há que se promover meios de adaptá-lo, cuidá-lo e recuperá-lo, caso contrário, ao invés de salvar o doente, acabaremos, todos, por sucumbir, em um trabalho de inútil benemerência, que não pode ser confundido com a estrita observância aos direitos humanos ou de respeito à cidadania”.
Apoios
A representação em âmbito federal está sendo apoiada por organizações como a Justiça Global, o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), o Observatório de Favelas, a Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (ANCED)  e a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).

Conselhos de psicologia vão à Procuradoria contra internação compulsória

Folha.com - JOHANNA NUBLAT
DE BRASÍLIA
Internações e abrigamentos compulsórios por uso de álcool ou outras drogas, práticas que vêm sendo adotadas ou discutidas em vários Estados do país, foram questionadas formalmente pelo CFP (Conselho Federal de Psicologia) e três de seus braços regionais.
O CFP informa que representações foram entregues nesta sexta-feira ao Ministério Público Federal com argumentos de que as práticas citadas violam a Constituição.
"Os conselhos solicitam ao Ministério Público a adoção de medidas legais, inclusive com o ajuizamento das ações competentes, que visem à suspensão imediata de práticas de internação e abrigamento compulsórios pelos governos Federal e estaduais, de modo a privilegiar a utilização de medidas sócio-educativas aos usuários de crack, álcool ou outras drogas, como também aos portadores de doenças mentais", diz nota divulgada pelo conselho.
A solução, continua o texto, "deve privilegiar os princípios de um cuidado em meio aberto, humanizado, com equipes multiprofissionais qualificadas, que tenham condições de trabalho dignas garantidas, no âmbito das políticas de saúde mental e coletiva e da assistência social".
O documento lista a participação de três Estados na ação: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, "Estados nos quais políticas de internação e abrigamento vêm ganhando espaço".

domingo, 6 de novembro de 2011

Trabalhadores alcoólatras não poderão ser demitidos por justa causa


Trabalhadores alcoólatras não poderão ser demitidos por justa causa


Agência Senado
Loc: Dois projetos que alteram a CLT foram aprovados pela comissão de assuntos sociais do senado federal.  O primeiro proíbe os empregadores de usar as listas de restrição de crédito para a seleção de empregados.
Loc: ...O segundo impede que trabalhadores que sofrem com o alcoolismo sejam demitidos por justa causa. Os detalhes com a repórter Ana Beatriz Santos.

(REPÓRTER): As empresas não vão poder utilizar o cadastro de serviços de proteção ao crédito, como o SPC, para definir a contratação ou demissão de funcionários. A matéria do senador Marcelo Crivella, do PRB do Rio de Janeiro, prevê que a empresa que alegar o "nome sujo"  como justificativa para não empregar um candidato ou demitir um funcionário estará cometendo crime. Outra proposta aprovada pela comissão que altera a CLT é o projeto que proíbe a demissão por justa causa do empregado que sofre de alcoolismo. O texto do relator da matéria, senador Paulo Bauer, propõe que o empregado que apresentar sintomas de dependência deverá ser encaminhado para aconselhamento médico, e só poderá ser demitido se não aceitar o tratamento. O senador Waldemir Moka, do PMDB de Mato Grosso do Sul, que é médico, elogiou a proposta.
(WALDEMIR MOKA): Nós estamos falando, aqui, exatamente de pessoas que têm uma dependência química e precisam de uma licença para tratamento. E, claro, se recusarem ajuda, aí sim, e somente aí poderão ser demitidos por justa causa.

(REPÓRTER): Como o texto que veio da Câmara dos deputados foi modificado pelos senadores, a proposta aprovada na comissão de assuntos sociais precisa ser avaliada novamente pelos deputados federais antes de virar lei.
Ana Beatriz Santos

Coned cria comissão para regulamentar comunidades terapêuticas


Coned cria comissão para regulamentar comunidades terapêuticas


Governo do Estado de São Paulo

O Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas (Coned), vinculado à Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, instituiu na última quinta-feira, 27 de outubro, um grupo de trabalho para realizar um mapeamento de comunidades terapêuticas no Estado de São Paulo. A comissão também deverá analisar diretrizes para a regulamentação das instituições que prestam serviços de atenção a dependentes químicos.
A partir do dia 7 de novembro, os conselheiros discutirão os parâmetros mínimos de funcionamento dessas comunidades. Formada por uma equipe interdisciplinar, com a participação da Coordenação Estadual de Políticas sobre Drogas (Coed), a comissão pretende oferecer subsídios para a elaboração de um decreto estadual que regulamente o funcionamento dessas entidades.
“Esperamos concluir o trabalho no prazo de seis meses”, afirmou o presidente do Coned, Mauro Aranha. O conselho buscará, através das prefeituras e secretarias estaduais, informações sobre comunidades em todo o Estado. Os patamares mínimos para a autorização de funcionamento, terão como base as recomendações do Manual de Orientação para Instalação e Funcionamento das Comunidades Terapêuticas no Estado de São Paulo, lançado em setembro pelo Coned.
“Das 240 comunidades que se cadastraram no Coned em 2010, apenas 10% solicitaram parecer de avaliação do Coned”. O parecer é necessário para a inclusão da entidade em programas governamentais de financiamento. Os dados indicam que 90% das entidades estão fora dos padrões pré-estabelecidos pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e pelo Ministério da Saúde.
Pesquisa realizada pela Universidade de Brasília (UNB) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), indica que cerca de 80% dos tratamentos de dependência são feitos pelas comunidades terapêuticas.

Psiquiatria está em crise por falta de provas científicas


Psiquiatria está em crise por falta de provas científicas


Prêmio nobel fala sobre a dificuldade de fazer diagnósticos objetivos de transtornos mentais
Folha de São Paulo - Rafael Garcia - de Washington
A psiquiatria está em crise, porque falta comprovação biológica para seus conceitos. Essa é a opinião do neurobiólogo Eric Kandel, 81, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 2000.
O cientista, premiado por seus estudos com memória, desembarca nesta semana no Rio de Janeiro para participar do Congresso Brasileiro de Psiquiatria.
Em entrevista à Folha, Kandel condenou o uso de remédios como a ritalina (droga para tratar deficit de atenção) para melhorar a concentração de pessoas saudáveis.
Ele falou também sobre a validade da psicanálise, que pode cobrir lacunas da psiquiatria, caso adote padrões científicos mais rígidos. O pesquisador comenta também sobre sua nova invenção: um camundongo "esquizofrênico" para testar medicamentos .

Folha - Psiquiatras estão debatendo mudanças no manual de diagnósticos de transtornos mentais. Muitos acham que o livro não pode tentar ser muito objetivo. O que o sr. acha?
Eric Kandel - A preocupação com a objetividade foi introduzida há uns 20 anos quando houve uma tentativa de validar os critérios do manual para descrever transtornos. Isso foi extremamente importante para que diferentes psiquiatras pudessem dar o mesmo diagnóstico a um mesmo paciente.
Mas não houve muitos avanços desde então. Uma das razões para isso é que os psiquiatras não têm os chamados "marcadores biológicos" à disposição. Se você diagnostica diabetes ou hipertensão, pode usar medições objetivas, independentes. Não precisa se basear apenas naquilo que o paciente lhe conta. Nós, psiquiatras, ainda temos que recorrer à história do paciente. Precisamos de sesperadamente de bons marcadores biológicos. Sem isso, podemos publicar quantas edições quisermos do manual, que não chegaremos a lugar nenhum.

A esquizofrenia afeta capacidades mentais humanas. Como é possível usar um camundongo para estudá-la?
A esquizofrenia tem três classes de sintomas. Há os "positivos" -ilusões, alucinações e loucura-, os "negativos" -reclusão, isolamento social e falta de motivação- e os "cognitivos" -a dificuldade de organizar as ideias e trabalhar. É difícil criar um modelo para estudar os sintomas positivos em cobaias, mas podemos modelar os cognitivos e negativos.
Criamos um camundongo cujo corpo estriado [estrutura no núcleo do cérebro] produz em excesso uma proteína que os neurônios usam para captar o neurotransmissor dopamina. Essa é uma lesão genética que ocorre em parte dos pacientes com esquizofrenia. Depois, encontramos um medicamento que supera essa deficiência e a restaura ao normal. Achamos que isso poderá ser útil para tratamentos de depressão também.

O que o sr. acha de usar drogas, como a ritalina (receitada para deficit de atenção) para "turbinar" a inteligência, aumentando a concentração? 
Não acho que seja boa ideia para pessoas saudáveis. Esses remédios devem ser prescritos para pessoas com problemas cognitivos. Essa drogas não devem nunca ser vendidas sem receita. Não são vitaminas.

O sr. vem falar no Brasil, onde a psicanálise é relativamente bem aceita. Nos EUA, não é assim. Que papel o sr. vê para as ideias de Freud hoje?
Não vejo problema em ler Freud da mesma forma que lemos Nietzche, Dostoiévski ou Shakespeare -grandes pensadores que escreveram sobre a mente humana. Mas se você quer que a psicanálise seja uma terapia eficaz, é preciso ter estudos que mostrem resultado. É necessário explicar o que ocorre no cérebro. Isso seria trabalhoso, mas é precisa ser feito.
O maior problema não é com Freud, mas com aqueles que o sucederam. Eles não desenvolveram uma tradição científica na psicanálise. O treinamento para psicanálise deveria mudar, de forma que uma parte das pessoas formadas se dedicasse exclusivamente à pesquisa.

Não existe hoje uma aceitação maior de que a mente descrita por Freud possui estruturas correlatas no cérebro?
Sim. O córtex pré-frontal está muito relacionado à moralidade e ao julgamento de valores, por exemplo. Uma lesão nessa região do cérebro pode tornar uma pessoa amoral, um psicopata. Mas acima disso, a ideia geral de Freud sobre processos mentais inconscientes é muito importante para nossas vidas. Boa parte de nossa atividade mental é inconsciente. Isso acabou se mostrando uma verdade universal.

O sr. passou a infância em Viena, quando Freud ainda vivia lá, sofrendo também a perseguição nazista. Isso o influenciou em sua maior aceitação à psicanálise?
Isso teve efeitos positivos e negativos em mim. De um lado, parte de minha vida era superar o transtorno do estresse pós-traumático, porque foi uma experiência terrível. Mas eu fui influenciado pela cultura de Viena, tinha muitos amigos cujos pais eram psicanalistas, e tinha interesse nisso.
Eu só desisti da psicanálise quando me apaixonei pela neurobiologia. E eu me interessei pelos mecanismos de armazenamento de memória, porque é um assunto central da psicanálise.